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05/10 10h24 2015 Você está aqui: Home / Pensando a História Marcus Paixão mvpaixao@yahoo.com.br

Campo Maior, Religião e Idade Média

Um claro exemplo do espírito medieval encontra-se na postura religiosa rigidamente católica do português em Campo Maior.

A reflexão histórica é uma tarefa ímpar no ofício do historiador profissional. Conhecer os momentos históricos específicos, as culturas e os povos, as continuidades e descontinuidades são tarefas imprescindíveis para o entendimento das construções históricas que forjaram nossa identidade enquanto povo. A história do povoamento de Campo Maior e de todo o Piauí não escapou das influências da grande Idade Média. Nossa terra e gente têm, em certa medida, o DNA medieval. Esse texto não tem finalidade religiosa, nem tão pouco foi escrito para denegrir a religião católica, mas, sobretudo, o que almejo é demonstrar como alguns aspectos do período medieval marcaram a construção de nossa história e cultura.

 


Os portugueses que adentraram nossa terra eram homens que ainda pensavam como o homem medieval. Mesmo compreendendo que há uma disputa quanto à extensão do período medieval, e reconhecendo que todas as demarcações temporais são convenções humanas elaboradas por historiadores com base em argumentos bem elaborados, é de bom tom aceitar que toda a extensão do século XVII ainda é idade média e não deve escapar de uma reflexão histórica com vista no medievalismo europeu. O historiador Jacques Legoff, um especialista na época medieval, compreende uma longa idade média, que se estende até o final do século XIX. Sendo assim, os primeiros aventureiros portugueses que chegaram a nossos sertões, por volta da segunda metade do século XVII, eram homens de mentalidade medieval, embebidos com o forte medievalismo europeu. O sistema de agricultura, as sesmarias como pequenos feudos que se estenderam mais tarde a grandes latifúndios de famílias poderosas, que mantinham pequenas colônias humanas em suas terras que trabalhavam para enriquecer seus proprietários; a religião e suas lendas encabeçadas por santos católicos, tudo isso é uma herança da Idade Média que foi bem difundida em nossa terra. 

 


Um claro exemplo do espírito medieval encontra-se na postura religiosa rigidamente católica do português em Campo Maior. Isso pode ser concluído a partir do estudo da religiosidade portuguesa do além-mar, que não perde o vínculo com a religião da pátria européia. Portador de uma devoção pelos santos que concorria e até ultrapassava a do próprio Jesus, filho de Deus, o português erigiu sua primeira capela em terras do norte do Piauí, em Campo Maior, pequena e sem grandes pretensões, e a dedicou a Santo Antonio. Com todas as homenagens e crendices de origem medieval, Santo Antonio passou a ser apresentado como o santo português e seus muitos poderes sagrados logo foram se espelhando no imaginário popular. Também são medievais todas as lendas de aparição misteriosa da imagem do orago, bem como de muitos outros santos católicos, o que representava para a população, sempre incentivado pelo clero, um sinal sagrado ou um presságio enviado pelo santo sagrado para orientar o povo em algum assunto. Em Campo Maior, uma das lendas mais antigas relacionadas a Santo Antonio diz respeito ao lugar onde a capela foi construída, o alto da colina, lugar onde está a catedral de Santo Antonio. Conta-se que a imagem foi encontrada misteriosamente ali, e, por isso, a capela deveria ser erguida naquele lugar, conforme era a vontade de Santo Antonio. Também o nome da Freguesia está relacionado às crendices medievais. Essa outra lenda sugere que o nome Santo Antonio do Surubim está relacionado a uma imagem do santo, retirada das profundezas do rio Surubim, e que, desde então, passou a ser chamado Santo Antonio do Surubim. 

 


Todas essas lendas são medievais e existem milhares de relatos desse tipo na Europa, que foram importados para a colônia, espalhados por todas províncias, chegando também à ultimas delas, o Piauí. O imaginário medieval, extremamente ligado ao aspecto religioso, fazia com que o homem desse período agisse sempre em parceria aos aspectos do catolicismo romano, religião do português. Santos também tinham poder militar e comandavam o exército português, mas isso dependia da devoção do monarca. Em outras palavras, o santo de devoção do rei era o chefe militar e responsável pela proteção do exército e pelas vitórias nas batalhas, mas era Santo Antonio o grande patrono das forças armadas portuguesas. Esse título, conforme reza a lenda medieval, foi atribuído a ele depois que um almirante espanhol, cercado por mulçumanos, reconhecendo a derrota inevitável, ao ver a imagem do santo em seu barco, resolve pôr sobre a cabeça da imagem o seu chapéu de Almirante e as suas insígnias. Logo em seguida, inexplicavelmente, os mulçumanos debandam em retirada desesperada. 

 

 

Foi com base nessa idéia medieval que a irmandade de Santo Antonio solicitou um pedido de ajuda à rainha de Portugal, lembrando a ela que Santo Antonio, santo cuja capelinha em Campo Maior fora demolida e a nova ainda não estava por completo construída pela falta de recursos, foi mencionado como o santo que comandava os exército da rainha Maria I, a monarca portuguesa a quem a carta é remetida. Tudo cheio de simbolismo e repleto de táticas “sagradas”, a carta é datada em 13 de junho de 1779. 13 de junho é o dia de Santo Antonio no calendário católico medieval. Esse calendário vigora até hoje no mundo ocidental. 

 


Muito da crendice do catolicismo popular é fruto de um pensamento com raízes no período medieval, mas que permanece cimentado na mentalidade do povo, o que demonstra, dentre outras coisas, uma lenta descontinuidade do período medieval. Alguns aspectos permanecem fortes, especialmente os religiosos.  

 

 


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