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Geólogo explica as razões para as dificuldades do abastecimento de água em Campo Maior

Há 20 anos o lençol freático de Campo Maior era mais superficial e abundante, hoje é mais profundo e limitado.

O geólogo Marco Aurélio comenta sobre as razões das dificuldades de abastecimento público de água em Campo Maior no que se refere à opção pela água subterrânea, ou seja, a perfuração de poços, opção estratégica que foi feita décadas atrás, por diversas administrações municipais anteriores e até pelo poder público estadual.

ARTIGO

Inicialmente, tem de se destacar que a cidade de Campo Maior está, do ponto de vista da geologia, numa situação regional diferenciada para a perfuração de poços e para a captação de água subterrânea, tanto no que se refere a volume, ou seja, vazão, quantidade de água e, também, em qualidade.

Isto porque, a cidade de Campo Maior está posicionada sobre camadas de rochas duras e impermeáveis, altamente mineralizadas, que tipicamente não são armazenadoras de água, diferentemente das rochas que ocorrem sobre as cidades vizinhas de Altos e Teresina, por exemplo, onde, via de regra, em qualquer lugar que você perfurar um poço tubular, ele terá sempre vazões razoáveis e boa qualidade de água, salvo as exceções quem sempre existem, né?

Estas camadas de rochas duras, de Campo Maior, comparando, assim como se fossem várias fatias de pão-de-forma de um sanduíche misto, se sucedem umas sobre as outras, até cerca de 750 metros de profundidade, no poço mais profundo já perfurado na cidade.

É importante ressaltar, que neste intervalo todo, ou seja, entre 0 e 750 metros, apenas entre 450 e 550 metros de profundidade, existe uma camada de rocha tipicamente armazenadora de água, o arenito, que, forneceu uma vazão muito pequeno, menor até que a vazão medida em poços mais rasos já perfurados na cidade, mostrando-se incapaz de fornecer um volume de água que justificasse o custo da perfuração de poços tão profundos assim, ressaltando-se, ainda, a qualidade sofrível da água encontrada nele.

Então, neste intervalo de até 450 metros, embaixo da cidade, basicamente existem, podemos dizer assim, grosso modo, 2 camadas rochosas diferentes, quais sejam:

Até 120 metros, aproximadamente, sob o solo superficial, uma camada de rocha endurecida, principalmente uma rocha que é denominada folhelho, que é impermeável e não é tipicamente armazenadora de água.

De 120 a 450 metros, são 300 metros de uma rocha vulcânica, que também não é tipicamente armazenadora de água, um basalto, semelhante a essa pedra preta que é usada na fabricação da brita, que todos conhecem.

Os poços tubulares em operação, e conhecidos publicamente, em Campo Maior, têm uma profundidade máxima de até 350 metros, como os da Fazenda Água Limpa, por exemplo, ali, antes da Polícia Rodoviária Federal, sendo que os poços do sistema público de abastecimento, operados pelo SAAE, estão limitados atualmente até a profundidade de 240 metros, haja vista que a qualidade geoquímica da água subterrânea na cidade tende a piorar com o aumento excessivo da profundidade dos poços.

Neste intervalo de profundidade, ou seja, até 240 metros, ou 350 metros, nessas duas camadas de rocha, como se fossem duas fatias de pão-de-forma sobrepostas, como falamos antes, a água subterrânea está armazenada, fazendo uma analogia simples, dentro de canais subterrâneos, ou aberturas recortadas nas rochas sob a cidade, que é de onde a água é retirada pelos poços tubulares.

Em alguns pontos da cidade, estes canais podem ser mais largos, em outros, mais estreitos, ou até mesmo inexistirem tais aberturas e, neste caso, não há água armazenada no local.

Isto significa dizer que, de modo geral, os poços perfurados terão vazões maiores ou menores, a depender do local escolhido para a perfuração.

Este fato, que resulta da geologia desfavorável, é o que justifica um dos gargalos do abastecimento d’água de Campo Maior, que é a intermitência no atendimento, ou seja, a falta de água em alguns períodos do dia, por conta de que alguns bairros estão posicionados em locais da cidade onde os poços foram perfurados em rochas que têm, infelizmente, por uma situação natural, aberturas mais estreitas nas rochas, em menor quantidade, com menos água armazenada e menor capacidade de fornecê-la (lembre-se que quanto menor a bitola do canos, mais difícil é a passagem da água, não é?), e assim, as vazões desses poços, mesmo perfurados em grande quantidade, como ocorre em alguns bairros, são insuficientes para fazer frente à demanda de atendimento regular.

Outro complicador do abastecimento de água a partir de poços tubulares, e que resulta da geologia característica da cidade de Campo Maior, ressaltando que se trata, tal escolha, de uma opção estratégica histórica de várias administrações municipais, é que essas rochas vulcânicas existentes em profundidade, formam, uma espécie de, barragens, na ausência daqueles canais subterrâneos, que falei antes, reduzindo a velocidade de circulação da água, de forma que ela, então, demora mais tempo em contato com as rochas vulcânicas altamente mineralizadas e, assim, incorpora, na sua composição química, parte do minerais constituintes destas rochas, e isto faz com que a água, infiltrada pela chuva e pelos rios e riachos da região ao longo do tempo geológico, por milhares de anos e, inclusive atualmente, perca um pouco de sua qualidade original.

Finalmente, posso dizer, ainda, que, pensando no planejamento do futuro da cidade, a médio e longo prazo, com relação à regularização do abastecimento público de água, o conhecimento dos melhores locais para a perfuração de poços tubulares, com grandes vazões e melhor qualidade da água, requer estudos técnicos complexos em áreas maiores que a da própria cidade, e que devem ser feitos, preferencialmente, até pelo nível regional necessário, que pode chegar a envolver a superfície territorial de outros municípios, por órgãos estaduais ou federais especializados, levando-se em conta a geologia extremamente diferenciada desta área, em que está inserida a cidade de Campo Maior.

Texto do geólogo Marco Aurélio


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