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16/07 22h58 2015 Você está aqui: Home / Pensando a História Marcus Paixão mvpaixao@yahoo.com.br

Memória, Economia, Religião, História e Geografia a partir do Rio Surubim

Veja mais um artigo do professor Marcus Paixão sobre a História de Campo Maior

Por Marcus Paixão*

Ao cruzar o rio Surubim, atravessando-o pela ponte de concreto que foi erguida sobre ele na primeira metade do século XX, o transeunte ainda pode ter uma visão quase que primitiva da região por onde o rio segue serpenteando na terra de Campo Maior até encontrar o Longá, distante daquele ponto pouco mais de 4 km. Se o transeunte puder parar sobre a ponte, terá a oportunidade de acompanhar o trajeto do Surubim em direção ao Longá, e se tiver um pouco de paciência e disciplina, pode deixar o imaginário refletir na terra virgem dos tempos mais antigos, numa imagem que pode retroceder a tempos tão remotos e anteriores a tudo que se tem historicamente noticiado. O rio Surubim, descrito como “caudaloso” pelos primeiros portugueses e cujas águas estavam “infestadas” de peixe, foi cenário de memoráveis acontecimentos.barragem16

Antes de começarmos a vislumbrar o Surubim a partir da Ponte, quero lembrar ao meu leitor um pouco da história mais remota cujo dito rio é parte marcante do cenário. Logo cedo, em meados de 1750, o Surubim começou a atrair mais gente às suas margens do que o rio Longá, que é muito mais volumoso, mais extenso e importante. Ainda no século XVIII constata-se que havia mais fazendas e sítios nas margens do Surubim do que nas margens do rio Longá. Tenho certeza que o principal fenômeno de atração do Surubim era o religioso, a igreja de Santo Antonio, sede da Freguesia. Aliás, ressalto que a própria igreja foi influenciada pelo rio, lembrada com o nome dele, e não apenas por Santo Antonio, visto que a igreja era sede da Freguesia de Santo Antonio “do Surubim”. A documentação jurídica mais antiga de Campo Maior repetidamente descreve a vila como “Vila de Santo Antonio do Surubim”. O rio influenciou não só a igreja, também o próprio povoamento. Seu nome indígena, significando “pintado”, ficou marcado no batismo da igreja, da Freguesia e da Vila, todos carregando o sobrenome Surubim.

A ponte que lhe atravessa é relativamente nova. Primeiro uma ponte de madeira, cujas imagens da construção ainda estão preservadas em acervos particulares. Depois veio a ponte de concreto armado, mais robusta, moderna e que apontava para uma época de desenvolvimento econômico. Porém, antes que qualquer ponte ligasse as duas metades de Campo Maior, havia outra forma de se atravessar o rio sem se molhar. E disso o poder público representado pelo Conselho de Campo Maior logo se aproveitou. Para atravessar o Surubim e chegar à Campo Maior (em fins do século XIX a cidade começava do outro lado do rio), era preciso pagar pedágio. A passagem era leiloada publicamente, com audiência realizada no Conselho da cidade. Aquele que arrematasse a passagem, por um ano, pagava o devido valor ao Conselho, e então o arrendatário passava a cobrar uma taxa para atravessar as pessoas e objetos em uma canoa. E assim o Surubim seguia proporcionando avanços econômicos e alguns transtornos. Anualmente a “passagem do Surubim, do Longá e do Jenipapo” eram leiloadas. A prática só foi interrompida alguns anos antes da construção da primeira ponte de madeira.

Dirigindo sua visão para o outro lado, na direção da velha barragem, não se decepcionará o transeunte com a paisagem. Continuando com o olhar focado no Surubim, perceberá que o rio desce mais enfraquecido por ter sido represado mais adiante. Para seguir livre, suas águas precisam vencer o paredão de pedra e continuar no seu curso natural imponente. Contudo o transeunte continuará tendo uma visão ainda mais fantástica, de rara beleza, especialmente se observa o panorama. Claro que a visão não é mais como já foi um dia, pois o progresso da urbanização inevitavelmente modifica a paisagem natural, e com a construção da Avenida Surubim, a intervenção humana roubou muito da beleza natural das margens do rio. Panoramicamente, acima do rio Surubim, a esplendorosa serra azul está ao fundo, lembrando a todos que cortam aquela ponte de concreto, que eles, sem dúvida, estão em Campo Maior. A visão proporcionada pela passagem do Surubim, livre de árvores, deixa a serra sem impedimentos. A imagem imponente do cume da serra também nos lembra que Campo Maior ainda não é tão desenvolvida economicamente, caso contrário, não seria mais possível tão bela visão, pois os prédios e condomínios já teriam roubado a cena. A imagem da serra também denuncia décadas de uma estúpida leniência do poder público, que deixa de aproveitar o imenso potencial turístico da nossa linda “montanha”.  O Surubim também é uma fonte econômica não aproveitada pela municipalidade, que poderia render bons recursos, gerando emprego e renda. Um balneário foi parcialmente construído e já foi abandonado. O “Campo Florestal” é abrigo de usuários de drogas. O que poderia enobrecer a cidade, elevá-la culturalmente, economicamente, além de não ser aproveitado, está abandonado, entregue aos cuidados de vândalos e dependentes químicos.

Se o transeunte voltar-se em direção ao centro da cidade, do mesmo ponto da ponte que corta o Surubim, verá ainda um pouco do quadrante da Praça Bona Primo, que marca a cidade antiga, com casarões do Oitocentos e até do auge do período colonial. Aqui também há história. Do mesmo ponto, erguendo a cabeça, verá também a torre da Igreja de Santo Antonio, marco zero e epicentro do desenvolvimento de Campo Maior. Ali foi erigida a primeira construção do complexo urbano que hoje chama-se Campo Maior. Foi essa construção que motivou tantos fazendeiros a se mudarem para suas cercanias. Ali o povoamento começou, tomou forma e se desenvolveu. A igreja foi erigida logo no inicio do século XVIII, por escravos africanos, fato que quase ninguém gosta de comentar, preferindo destacar a figura do senhor dos escravo, o branco Bernardo de Carvalho. A capela era pequena inicialmente, em nada lembrando a grandiosa catedral de hoje. Em 1779 a irmandade de Santo Antonio solicita diretamente à rainha recursos para a ampliação da igreja da Vila de Campo Maior, que já não comportava os fiéis da comunidade. Isso aconteceu pelo fato de que o Governador Pereira Caldas, 17 anos antes, cumprindo ordens do Rei de Portugal, havia instigado os moradores da nova vila e seus termos a construírem casas e ali habitassem com suas famílias, sendo a igreja e a praça em frente o núcleo da Vila. O documento foi assinado por inúmeros fazendeiros, em 1762. Em meados do Oitocentos as reformas na igreja foram concluídas, surgindo a segunda igreja, que foi derrubada em 1944. Só então foram iniciadas as obras da terceira igreja, a atual catedral, que levaram duas décadas para serem concluídas.

Olhando para o outro lado, voltando-se num semicírculo, o transeunte se depara com o bairro Flores. Embora a urbanização já domine a paisagem, ainda pode-se perceber traços das antigas fazendas nas margens da avenida asfáltica que separa o bairro. À direita e à esquerda, logo na saída da ponte, por causa da presença do rio, ainda se pode perceber um “ar” de fazenda, de ruralismo, de antiguidade. A região era reduto de muitas fazendas, e seguindo mais adiante, a beleza da região encanta qualquer pessoa. A região segue com uma densa floresta de carnaubeiras que se espalha, quase que de modo incalculável, pelas campinas, em direção a cidade de Barras. A história registra a presença de importantes fazendas, como a Santo Antonio, Anagé. A visão privilegiada de quem está no Surubim é estupenda! Para onde se voltam os olhos há história.

* Marcus Paixão é Pastor, Historiador, pesquisador, escritor e editor chefe do jornal Foge Home e colabora com blog aqui no Em Foco.


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