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12/12 23h33 2017 Você está aqui: Home / Blog da Ana Ana Maria Cunha campomaioremfoco@hotmail.com

Segure na mão dela, Doutor

O que sei é que cada pessoa é um mistério. E que os  fatos isolados não explicam uma vida.

 

_ Segure na mão dela, Doutor!

 

Ele olhou assustado a mãe sentada ao seu lado no banco da igreja, olhou também a moça que lhe fizera aquele pedido, que estava sentada do outro lado da senhora e era a cuidadora dela, e que,  ao tempo em que falava, segurava a outra mão da velha senhora, talvez para dar o exemplo, e ensinar como se fazia...

 

O “Doutor” estendeu a mão hesitante, um leve e quase imperceptível tremor mostravam o quanto lhe custava segurar a mão daquela mulher ali sentada, de frente para o altar, na Igreja de São Benedito. Tentou, mas não conseguiu tocar a mão inerte sobre as débeis pernas daquela que lhe dera a luz. Juntou as duas  mãos, olhou novamente para o altar e começou a rezar o Pai Nosso... Lançava um olhar furtivo de vez em quando em direção à mãe e, neste simples olhar, transmitia uma imensidão de sentimentos que eu, sentada no banco de traz não consegui evitar perceber, mas também não consegui decifrar.  

 

Eu nunca o vira na igreja, embora ela estivesse ali todos os domingos ao lado daquela moça que cuidava dela com tanto carinho. Eu a via sempre ali, bem vestida, ornada com brincos, pulseiras e colares, mas nunca o tinha visto a seu lado. Era a primeira vez.

 

E não pude me furtar de prestar atenção  neles. Primeiro porque estavam sentados na minha frente e era impossível não ver o que estava acontecendo ali. E segundo, porque realmente eu fiquei impressionada com a atitude daquele homem, que já não era tão jovem, embora não fosse velho ainda,  e de sua mãe, já velhinha e com os problemas próprios da idade...

 

E para mim, que sou uma pessoa antenada com as situações que acontecem ao meu redor, causou-me uma forte impressão.     Passei o resto do dia com aquela cena na cabeça e foram surgindo um turbilhão de perguntas que nunca terão respostas.

 

O que levaria um homem de meia idade, um “Doutor”, a temer segurar aquelas mãos frágeis  e indefesas? Falta de costume? Falta de amor? Falta de jeito? Medo? Rejeição?

 

O que teria levado aquela moça, a pedir que o homem segurasse as mãos da idosa? Se todo mundo estava segurando a mão da pessoa ao lado, sendo conhecida ou não, o natural seria que o “Doutor” segurasse a mão da mãe sem necessidade alguma que lhe fosse sugerido isso. E mesmo assim ele não conseguiu fazê-lo...

 

Teria a velha senhora percebido a reação do filho, diante da possibilidade de tocá-la? O que teria se passado no coração daquela mãe idosa, ao sentir a repulsa do próprio filho? Seria impressão minha ou eu vira brilhar uma lágrima naqueles olhos cansados? ou seria a lágrima teimosa que caiu do meu olho que embotou a minha visão?

 

Teria a cuidadora todas estas respostas? Ou talvez não... Talvez tenha as mesmas dúvidas que eu... e mais algumas...

 

Não sei e jamais saberei, e não cabe a mim julgar, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.  Eles só, sabem o bem ou o mal que se causam mutuamente, ou talvez nem saibam... Nem tenham percebido o que eu percebi. E o que eu acho que a moça ao lado também percebeu...

 

O que sei é que cada pessoa é um mistério. E que os  fatos isolados não explicam uma vida.


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