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02/12 10h10 2016 Você está aqui: Home / Pensando a História Marcus Paixão mvpaixao@yahoo.com.br

Ascendência do sobrenome Paixão

A complexidade do nome de um caixeiro viajante

Tocando gado do Ceará, saindo da cidade de Itapagé, o velho caixeiro viajante cruzava os sertões nordestinos com suas boiadas e suas cargas de rapadura, além de caixas amarradas nos lombos de mulas contendo uma variedade de miudezas.  Seu destino final era o Maranhão, mas sua rota comercial sempre o levava à encantadora vila de Campo Maior, lugar que já estava acostumado a visitar e fazer bons negócios. Essa é a história do primeiro personagem da família Paixão a se relacionar com Campo Maior. Seu primeiro nome é um mistério, a única coisa que nos restou de sua identidade está no seu nome de família: Paixão. É assim que vamos chama-lo. Suas viagens aconteceram por volta da segunda metade do século XIX, no último quartel. Observando a data de nascimento e de morte de outros membros da família, presumo que esse velho Paixão tenha nascido por volta de 1860, e sua lide era o comércio, na profissão de caixeiro viajante. 


O lugar de seu nascimento é incerto, talvez tenha nascido mesmo no Ceará, na cidade de Itapagé. Era de lá que ele vinha, com suas cabeças de gados e suas caixas de miudezas. Trazia ainda cargas de rapadura. Senão foi morar posteriormente em Itapagé, devemos considerar, por enquanto, que ele tenha mesmo nascido nessa cidade cearense. Não sabemos se tinha outra ocupação, tudo que nos chegou retrata esse homem como um vendedor, um caixeiro viajante que passava com certa frequência em Campo Maior. Portanto, maiores detalhes sobre sua vida não são possíveis. 


Esse texto é uma tentativa de esclarecer os fatos sobre a chegada da família Paixão em Campo Maior e sua fixação na cidade. Algumas tentativas de localizar o sobrenome Paixão na cidade de Itapagé já foram realizadas, mas todas sem sucesso. O próprio sobrenome “Paixão”, por si só, é um nome que gera dificuldades, especialmente pelo fato de está associado a uma prática comum entre os fiéis da religião católica, que batizavam seus filhos com nomes ligados à religião. Também a diversidade de pessoas com esse nome incomum não é tão pequena como pode parecer. Hoje o sobrenome está presente em todos os estados brasileiros, e famílias que carregam esse sobrenome já contam algumas gerações. Há, inclusive, fóruns de discussão na internet com pessoas de todo o Brasil que procuram saber a origem do seu sobrenome Paixão. A família Paixão, de Campo Maior, está na sexta ou sétima geração ininterrupta, o que já a torna um sobrenome forte. 


Quanto à origem do sobrenome Paixão, a questão ainda é problemática. Não sabemos se o nome Paixão foi dado em virtude de homenagem, como por exemplo, o fato de alguém ter nascido na sexta feira da paixão de Cristo, o que, nesse caso, não seria sobrenome, mas um nome comum; ou pelo simples fato da mãe ou pai desejarem relembrar esse dia sagrado do sofrimento de Cristo e perpetuá-lo no nome do filho. Nesse caso não seria um nome de família, mas um nome de lembrança e homenagem, um nome que indica devoção e fé. Bons exemplos são os nomes Maria “de Jesus” ou Maria “das Graças”, e ainda “Salvador”, caso os pais desejassem fazer uma homenagem a Maria, mãe de Jesus ou ao próprio Jesus, o Salvador. Muitas mães brasileiras, religiosas, dão às filhas esse nome como devoção e homenagem a Maria. Nesse caso o nome “Paixão”, se foi dado em lembrança a alguma data do calendário litúrgico do catolicismo romano, não era a princípio um nome de família, isto é, um sobrenome que representava uma determinada família. 


Mesmo reconhecendo que há toda uma questão religiosa que envolve a escolha desse nome, como muitos outros nomes ligados ao sagrado (Conceição, de concepção, referente à concepção virginal de Maria; Assunção, de Assunpção, que relembra a assunção de Jesus aos céus, etc.), alguns sugerem que o nome “Paixão” pertenceu a uma família portuguesa que remonta à idade média. Existe um brasão identificador da família Paixão, muito antigo, que aparece em alguns dicionários heráldicos, porém sobre isso há necessidade de mais estudos para comprovar sua história e autenticidade. 


O tronco mais antigo da família Paixão que consegui rastrear foi o de Dom Ignácio Peña Pasion (Pasion = Paixão), espanhol de Castela, que foi conselheiro do rei de Castela e Leão, Dom João II. Esse Ignácio Pasion é o patriarca ou a figura mais remota da família Paixão que pude verificar. Depois de muitas discórdias entre o rei e alguns dos seus ministros, a situação ficou insustentável, e muitos partiram para Portugal. Dom Ignácio foi um que deixou a Espanha e migrou para Lisboa e ali espalhou sua estirpe. O nome Pasion foi modificado por causa da língua, passando a ser descrito “Paixão”. Em Portugal, descendente de Dom Ignácio, surgiu a figura de Manuel Froes Paixão. Ele serviu no exército português sob as ordens do rei Afonso V. Em uma importante missão na África, comandou um dos 47 navios de guerra que conquistou 4 cidades marroquinas: Ceuta, Aucacer-Cequer, Arzila e Tânger. Manuel Froes Paixão veio a ser o Governador da cidade de Tânger, ocasião em que o rei lhe concedeu, por decreto, o brasão de armas, que foi usado mais tarde pelos lusitanos da família Paixão como escudo familiar. 


Depois disso a família Paixão passou a ter um brasão de procedência portuguesa. Os descendentes de Manuel Paixão se espalharam pelo país. Os descendentes desta família Paixão não podem ser confundidos com as pessoas que, por motivo religioso, também adotaram o nome Paixão, que acabou por se tornar um sobrenome em alguns casos. Em Portugal, no distrito da Guarda, numa pequena cidade que era chamada antigamente de Vila Nova de Foz Côa, ou simplesmente Foz Côa, existe um antigo livro de batismo da igreja dessa vila e há registro de várias pessoas com o sobrenome Paixão. As datas chegam ao início do século XIX, 1805 e adiante. É citada, por exemplo, uma Maria da Ressurreição da Paixão, neta materna de um João Antônio Paixão, provavelmente ligado a outro, chamado Jacinto Antônio Paixão. Há outros registros da família no livro. 


Em outros distritos de Portugal também se registra a presença do nome “Paixão”, resta confirmarmos se é o sobrenome da antiga casa, ou sobrenome que nasceu por conta do fenômeno religioso, o que parece mais provável na maioria dos casos. É bastante presumível que esse sobrenome português não tenha nenhuma ligação com o nosso “Paixão” de Campo Maior, do velho caixeiro viajante, e que o seu nome seja decorrente de motivo religioso, e em seguida se tornou um sobrenome, sendo repetido nos filhos que iam nascendo. Por isso existe muitas famílias de sobrenome Paixão, mas sem nenhuma ligação de parentesco, nem entre si e nem com a antiga casa dos Paixão de Portugal, sendo todas ou quase todas originadas pelo mesmo tipo do fenômeno religioso, tornando-se, posteriormente, um sobrenome. Sobre a possibilidade da casa dos Paixão de Portugal está relacionada com o Brasil, é preciso a confirmação da presença de algum membro dessa família em terra brasileira e que ele tenha dado seguimento à descendência no Brasil. Mais estudos são necessários. 


Considerando a possibilidade de o nome ser oriundo do fenômeno religioso, se o caixeiro viajante “Paixão” teve irmãos, eles não teriam esse nome incorporado. Nem eles e nem seus pais. O nome era uma mera lembrança à data da paixão de Cristo e seu nome de família seria outro, completamente desconhecido para nós. Talvez essa primeira posição não mereça tanta consideração, e eu tenho uma boa motivação para acreditar nisso. Observe: o filho desse caixeiro viajante, assim como o pai, também tinha “Paixão” no nome. Seu nome completo era Laurindo Alves Paixão. A primeira evidência é que o nome “Paixão” surge no final do nome completo, sendo o último nome em ordem de posição, o que pode indicar que esse era um nome de identificação familiar, que representava uma dada estirpe. O segundo ponto é a própria presença do nome “Paixão” no nome do filho. Se não era um nome identificador de uma família, então por que dar ao menino esse nome? O terceiro argumento está embasado na certeza de que o caixeiro viajante carregava esse nome, pois a casa em que ele se hospedava costumeiramente estava localizada numa viela, um beco que ficou conhecido como o “beco do Paixão”, e até hoje alguns dos mais velhos moradores da cidade de Campo Maior conhecem a pequena viela por esse nome, uma permanência que já ultrapassa mais de um século. Nesse caso, indubitavelmente temos dois indivíduos, pai e filho, que tinham “Paixão” no nome. Esse é um forte argumento para aceitarmos que “Paixão”, de fato, era o nome de uma determinada família, ou seja, um sobrenome. 

 

Se o raciocínio estiver correto, com o acredito, então, pelo nome do filho, podemos tentar reconstruir suas origens familiares. Como o filho do caixeiro “Paixão” se chamava Laurindo Alves Paixão, então, temos dois sobrenomes em destaque: “Alves” e “Paixão”. Se “Paixão” era o nome governante, ou seja, o nome que teria continuidade, o nome da ascendência masculina, então o “Alves” provavelmente determinava o sobrenome materno, da estirpe da sua mãe. Essa ainda é a prática usual hoje, determinada pelo estado brasileiro dede de 1939. Esse é um quadro muito complicado, um quebra-cabeça que não é fácil de montar. Em algumas famílias, um dos filhos, as vezes o segundo filho, poderia escolher o nome de um dos avós, quebrando a sucessão do nome que identifica a família. Muitas vezes há uma inversão da ordem dos sobrenomes, onde o nome do pai segue o da mãe. Também se observa que em dado momento histórico o nome mais importante vinha logo depois do prenome, e o último nome, não necessariamente seria o nome principal da família. A história dos sobrenomes é muito complicada, mas indico aqui o excelente trabalho realizado pelo advogado e escritor Gilberto de Abreu Sodré Carvalho. Ele traz boas informações que podem nos ajudar a constatar essa difícil questão do uso dos sobrenomes no século XIX: “esse sobrenome era usualmente o paterno ou vindo do pai, mas podia ser qualquer um ou mais dentre os usados por pai ou mãe, ou de um ou mais usados pelos quatro avós. Ou podia, ainda, vir de uma alcunha ou nome de devoção religiosa cristã.” (p. 526). Como apresentado por Sodré Carvalho, a questão não é tão simples.

 

Sobre o caixeiro viajante “Paixão” nos falta informações sobre sua esposa e os demais membros de sua família: Tinha irmãos? Quanto aos seus pais? Tinha outros filhos? Quantos filhos e quais os nomes? Como se chamava sua esposa? Essas informações são cruciais para nos ajudar a entender a origem da família Paixão com mais profundidade. O que temos, então? 


Voltamos ao início do texto: “Paixão” era um caixeiro viajante, que vinha de Itapagé, no Ceará, seguindo em direção ao Maranhão, lugar onde o grosso do seu comércio era realizado. Suas viagens começaram por volta de 1880. Na viagem, sua rota comercial passava pela vila de Campo Maior, lugar onde sempre passava alguns dias fazendo negócios. Tornou-se figura conhecida, chegando a dar nome a um beco formado por uma viela, que passou a ser conhecido como “beco do Paixão”. Sua venda consistia de miudezas, mas o principal produto era o gado e rapaduras. Viajava em grupo reduzido, formado por poucas pessoas. Seu filho, Laurindo, nasceu por volta de 1890, quando a vila já havia se tornado cidade. Sobre a origem do seu sobrenome, o mais provável é que seja uma lembrança religiosa da sexta feira da paixão de Cristo, que, em algum momento, antes dele ou a partir dele, passou a ser uado como sobrenome. Mas, quem sabe, não seja ele um parente distante da medievalesca casa dos Paixão de Portugal? 

 


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