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30/09 08h32 2016 Você está aqui: Home / Pensando a História Marcus Paixão mvpaixao@yahoo.com.br

A história mostra que apenas 4 prefeitos cumpriram o que prometeram para o Açude

O problema é que desde de 1940 apenas quatro prefeitos cumpriram suas promessas em relação ao açude

Tenho dito que nosso açude grande foi demasiadamente ‘usado’ por muitos políticos em suas campanhas eleitorais. O motivo é simples: o açude grande está no centro urbano de Campo Maior, e é objeto visível para cerca de 100 mil pessoas diariamente, incluindo aquelas que trafegam diuturnamente, seja em automóvel, em caminhão ou carro de passeio. Não são poucas as pessoas que cruzam nossa cidade em direção ao Ceará ou ao nosso litoral. Além dessas, claro, a própria população de Campo Maior. O nosso belo açude desperta a atenção de todos, isso é um fato. Um político profissional jamais iria deixar escapar uma oportunidade dessas para se promover e ganhar uma eleição. Isso que afirmo comprova-se na atual disputa eleitoral: todos os candidatos já apresentaram em seus planos de governo propostas de obras no açude grande. O problema é que desde de 1940 apenas quatro prefeitos cumpriram suas promessas em relação ao açude. Veja o que diz a história:

 

Prefeitos de Campo Maior, a contar a partir do ano de 1934. A saga, ou a primeira fase (12 anos) começa com o prefeito eleito Sigefredo Pacheco (1934 – 1937). Embora não tenha terminado o seu mandato por ter sido deposto do cargo em virtude do golpe de Estado perpetrado por Getúlio Vargas e a instalação do Estado Novo, Sigefredo Pacheco não promoveu nenhum tipo de obra no açude grande. Com a deposição de Sigefredo, foi nomeado Francisco Alves Cavalcante - interventor (1937 – 1942). Chico Alves, que já tinha administrado a cidade em 1930 e agora voltava ao poder, seguiu os passos de seu antecessor e não lembrou do nosso açude grande em sua administração. Nesse período a água do açude era uma das principais fontes de consumo da população. Raimundo Ney Bauman (1942 – 1943) teve uma administração relâmpago e muito apagada. Foi mais um que não olhou para a nossa velha lagoa. Ascendino Pinto Aragão (1943 – 1945) foi outro gestor que fez de contas que o açude não existia. Fez algumas obras, como calçar algumas ruas da cidade, mas nada consta em sua gestão em relação ao açude grande de Campo Maior. Depois veio, também nomeado, Edgar Miranda (1945 – 1946). Novamente o açude grande passa despercebido em mais essa gestão. Nessa primeira fase 5 gestores administraram Campo Maior – isso sem contar aqueles que governaram a cidade em substituição do gestor em alguns momentos. Nenhum deles moveu um dedo para beneficiar nosso açude grande. Durante esses anos a poluição começava a ganhar espaço no açude; a população crescia ao tempo em que não havia medida ou obra para conter a poluição ou mesmo trazer algum tipo de benefício ao açude. 


A segunda fase (21 anos) começa com Waldeck Bona (1946 – 1951). Começou sua gestão nomeado e governou Campo Maior por um ano em regime de força ditatorial. Depois foi eleito prefeito (1948 – 1951). Em seu governo construiu a barragem da Formiga, mas o açude não teve nenhuma prioridade em seu governo. Waldeck Bona não consumia da água do açude, pois ele mandara abrir um poço em uma de suas propriedades e se servia dessa água. Foi eleito nas eleições de 1950 o prof. Raimundo Nonato Monteiro de Santana (1951 – 1955). Embora tenha voltado seu olhar para a construção de barragens e melhorado o cuidado com os olhos d`água, o açude grande não foi alvo do seu governo. Chegou ao poder Oscar Castelo Branco (1955 – 1959) e teve uma atuação fraca, sem realizações marcantes. Quanto ao açude de Campo Maior, novamente tivemos mais uma gestão que não promoveu qualquer benefício. O próximo prefeito foi José Olímpio da Paz (1959 – 1963). Nessa altura o nosso açude grande ainda era o grande reservatório de água da cidade e a população mais pobre continuava consumindo sua água. Um passo importante foi a criação do SAAE e o início da rede de abastecimento e a construção de caixas d`água. José Olímpio foi outro gestor que não implementou ações em favor do açude grande. Para encerrar mais essa fase, temos o prefeito João de Deus Torres (1963 – 1967). Sua gestão, a semelhança das demais, não fez nenhum tipo de intervenção no açude. 


São mais 5 gestores, um total de 10 gestores do município que nada fizeram em relação ao açude grande de Campo Maior. Esses gestores cobrem um espaço de tempo equivalente a 33 anos de inatividade em prol do açude de Campo Maior. Foi justamente nesse mesmo tempo que o açude começou a receber os maiores níveis de poluição. Enquanto nenhum gestor trabalhava pelo açude, os índices de poluição cresciam e adoeciam nosso cartão postal. Foi no fim da década de sessenta que a Câmara dos Vereadores começou a ventilar informações sobre a poluição do açude. 


A terceira de fase (21 anos) apresenta mudanças de mentalidade dos gestores do município. Torna-se prefeito o prof. Raimundo Nonato de Andrade (1967 – 1971). Em sua administração o açude grande sofre a primeira grande intervenção. O caso merece ser apresentado com mais detalhes. Raimundinho Andrade tinha a intenção de modernizar a cidade, sua mobilidade urbana. Um entrave lhe incomodava: o cemitério da Irmandade de Santo Antônio ou, como é mais conhecido hoje, o “cemitério velho”. O prefeito pretendia acabar com aquele cemitério, remover todos os restos mortais que se encontravam nele e depositá-los no cemitério do bairro São João. Tudo estava preparado e ele chegou mesmo a iniciar as obras. Removeu os restos mortais dos seus avós paternos e maternos e os sepultou no São João. A demolição do cemitério quase aconteceu no mandato de João de Deus Torres. Naquela época, foi a professora Marion Saraiva uma das mais aguerridas contra essa ideia. A pretensão de modernização da cidade e sua urbanização voltou à tona e com muita força com o prefeito Raimundinho Andrade. 


No cemitério velho de Campo Maior está sepultado o pai do ex-presidente Castelo Branco, primeiro presidente do Brasil no regime militar. Cândido Borges Castelo Branco e toda a sua ascendência Castelo Branco é de origem campo-maiorense. Ao tomar conhecimento das pretensões do prefeito, o general da 10ª região militar, em Fortaeza - CE, Luiz Gonzaga de Oliveira, veio a Campo Maior e visitou o então prefeito. Tratou de lembrar-lhe que o corpo do pai do ex-presidente era ali sepultado e lhe fez o pedido para não demolir o cemitério em honra ao ex-presidente Castelo Branco. O prefeito, honrado com a visita de um oficial do exército brasileiro da mais alta patente e pensando no ilustre defunto e no seu filho, decide parar imediatamente as obras. Ao comunicar ao general sua decisão, este, muito agradecido, pergunta ao prefeito no que ele pode ajudar Campo Maior. O prefeito pede ao general, que era responsável pelo setor da engenharia do exército brasileiro que retirasse a BR do centro da cidade – nessa época a BR 343 seguia em linha reta onde atualmente é a Av. Santo Antônio. Na altura do Forum, a BR seguia onde hoje é a rua Cel. Eulálio Filho. O General garantiu a obra. Pediu um prazo de apenas 15 dias. 


Na data exata começaram a chegar caminhões e máquinas do exército em Campo Maior, e também muitos homens. A BR 343 foi transferida para a margem do açude. Por quase dois anos o exército esteve trabalhando na construção dessa obra e alargando não apenas a parede do açude, mas, inevitavelmente reduzindo sua orla (e seu tamanho) naquele ponto. O que havia antes era uma pequena parede que continha o avança da água em alguns pontos. Com a construção da BR 343 a antiga parede desapareceu em alguns pontos e em outros foi completamente alargada. Essa parede é uma das grandes obras realizadas no açude grande, pois cobre metade de sua extensão. Naquela período não tínhamos a lagoa, pois o açude ainda não tinha sido dividido em duas partes. 


Depois foi a vez do prefeito Jaime da Paz (1971 – 1973). Em sua gestão o açude não recebeu nenhuma atenção especial. Realizou trabalhos em outras áreas, mas nada em relação ao açude grande. Na administração de Dácio Bona (1973 – 1977) houve a implantação de postes e a iluminação da orla do açude grande. A água já não era mais consumida, senão por pessoas que não tinham a menor ideia do risco que corriam. Banhos ainda aconteciam, mas até mesmo a diversão no açude já estava diminuindo. Constantemente e sem a menor ação do poder público, animais eram encontrados em suas margens. 


A outra grande obra no açude aconteceu nos dias do prefeito Joaquim Mamede Lima (1977 – 1983). Em sua administração ele criou a Alameda Dirceu Arcoverde e dividiu o açude em duas partes, criando, dessa forma, a lagoa. A obra foi ousada, muito provavelmente ele não teria conseguido realiza-la hoje, visto que os órgãos ambientalistas poderiam se tornar um entrave. Certamente essa intervenção provocou impactos ambientais, mas não há como se avaliar precisamente o tamanho do prejuízo. Por outro lado, a obra facilitou muito a vida de quem residia na outra parte da cidade, acelerando, inclusive, o crescimento e o desenvolvimento urbano e econômico do município. 


Eleito no pleito de 1982, César Ribeiro Melo (1983 – 1988) fecha essa terceira fase (21 anos) de prefeitos de Campo Maior. Sua gestão não trouxe nenhuma obra ao açude, mas ele fez um gigantesco comício dentro do açude, que estava seco naquele ano de 1982. Campo Maior atravessava uma grande seca. Esta foi a fase onde o açude grande recebeu sua maior atenção e intervenções do município. Foi também nessa fase que o açude ganhou seu atual desenho geográfico. Por um lado, se a modernização foi boa por diversos aspectos, por outro lado, o açude perdeu consideravelmente seu tamanho e seu esplendor. 

 

Quarta fase (23 anos) tem início com a eleição de Raimundo Nonato Bona Carbureto (1989 – 1992). Em sua gestão ele secou parte do açude e fez o muro de pedra e o passeio em sua margem. A obra parecia ser faraônica no início, mas no fim das contas foi menor do que o que era esperado pela população. Em sua segunda gestão, Carbureto voltou novamente a trabalhar no açude de Campo Maior. O sucessor do Carbureto foi Marco Aurélio Bona (1993 – 1996). Em sua gestão, em relação ao açude grande, Campo Maior teve sua imagem muita arranhada. O ecologista Fernando Gomes dá início a uma campanha de revitalização do açude, que já contava com altíssimos índices de poluição. Chegou mesmo a ser interditado a nível federal pelo IBAMA. Uma multidão de alunos aderiu à campanha a favor do açude e o movimento ganha repercussão estadual muito rapidamente. Os jornais da época denunciam as ações do então prefeito, que deu ordens para a arrancadas de árvores ás margens do açude, bem como de placas de conscientização que foram fixadas em sua orla. Marco Bona foi taxativo em denunciar toda a atividade como mera propaganda política de Fernando Gomes, com a intenção de prejudicar sua imagem. Fora toda a confusão, o prefeito não fez nenhuma obra no açude, embora tenha trabalhado muito pela cidade.


Depois dele, governou Campo Maior o médico Antônio Lustosa Machado (1997 – 2000). O açude não recebeu nenhuma obra nova, nenhum tipo de intervenção. Novamente volta ao poder Raimundo Nonato Bona Carbureto (2001 – 2004), e novamente o açude recebe a atenção dele. Dessa vez Carbureto faz uma grande obra na lagoa e constrói a Alameda Waldeck Bona. Na época, houve um clamor ecológico alegando que todo o habitat da fauna que vivia na lagoa entraria em desequilíbrio. Carbureto conseguiu dar prosseguimento e a obra foi concluída. Porém o projeto apresentou falhas de engenharia. Em alguns pontos a alameda ficou abaixo do nível da água, o que ocasiona o seu completo alagamento no inverno. 


Essa fase (23 anos) termina com a eleição de João Félix de Andrade Filho (2005 – 2008; 2009 - 2012), que ficou por dois mandatos consecutivos como prefeito de Campo Maior. Praticamente, nas suas duas gestões, nada fez no açude grande. Sua obra mais próxima foi a revitalização da praça da Radar, chamada agora de Praça Waldir Fortes. 


Estamos vivendo o início de um novo ciclo, a quinta fase. Essa nova etapa começa com a eleição de Paulo César de Sousa Martins (2013 – 2016). Na gestão de Paulo Martins, na metade do seu terceiro ano de governo (junho de 2015), é dado início o maior de todos os projetos já realizados no açude grande de Campo Maior. O projeto de engenharia e arquitetura foi assinado pelo engenheiro Ribamar Filho e pela arquiteta Virgínia Bandeira. Com a licença ambiental expedida pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente autorizando a obra, e depois de estudados todos os detalhes do projeto, com recursos do próprio município, no mês de outubro, algumas bombas e dragas são instaladas e começa o trabalho de secar o açude grande. Pouco mais de um mês do início das obras, tratores de esteira, retroescavadeiras, caminhões e uma considerável quantidade de pessoas trabalhando, começa o serviço de despoluição ao açude grande. A bacia do açude, precisamente na encosta das paredes e em todo o seu contorno foi escavada e milhares de toneladas de dejetos e de material poluição, uma lama podre, centenária, foi retirada de dentro do açude. A obra chegou a ser paralisada pela Polícia Ambiental, depois de denúncia, mas um dia depois, com a apresentação da documentação, a obra é liberada e a prefeitura consegue retomar às atividades de limpeza do açude, com avaliação positiva de órgãos federais. Funcionários da FUNASA visitaram as obras no açude e depois de uma vistoria, concluíram que não havia nenhuma irregularidade. 


As obras causaram tanto impacto na população campo-maiorense, que as atividades passaram a ser acompanhadas por grande número de pessoas, que ficavam na passarela acompanhando as máquinas escavando a lama e o vai e vem das caçambas retirando os dejetos do açude. As atividades causaram um certo transtorno, pois quando as retroescavadeiras retiravam a lama um odor horrível surgiu e por muitas semanas impregnou todo o ambiente mais próximo. Era o resultado da lama podre sendo retirada de dentro do lago. Logo nas primeiras escavações, onde o rasgo de cerca de dois metros ou um pouco mais provocado pela retirada da lama, a água das primeiras chuvas, ao se ajuntar no rêgo aberto pelas máquinas, permanecia cristalina.


Com a chegada das chuvas, as obras foram interrompidas por cerca de seis meses. Porém, a primeira parte foi concluída. As máquinas haviam completado o cinturão em volta do açude e retirado toda a lama de suas margens, sem dúvida o ponto onde se concentrava a maior parte da poluição, visto que, por décadas, o esgoto de casas e estabelecimentos era derramado dentro do açude, no pé de sua parede. Também ficou concluída todo o aterramento que alargou por completo a extensão das paredes do açude. Restava agora esperar o inverno passar.


Em 2016, com o recuo das chuvas, no final de julho, as obras são retomadas e o passeio começa a ser construído. Novamente o vai e vem de máquinas pesadas e caminhões tomam conta do cenário do açude. A cidade vibra. Porque até então, havia o comentário de que as obras eram eleitoreiras e alguns pensavam que nunca veriam o retorno das obras. Caminhões chegavam diariamente com maciços blocos de pedra lavrada. O passeio começa a ganhar forma e as pedras são assentadas na orla do açude. 


Hoje, dia 29 de setembro, há exatos 14 meses começou a maior intervenção em nosso açude em toda a história de Campo Maior. A obra prossegue, não parou. Pelo que já fez, iniciando o projeto de despoluição e concentrando esforços na construção e revitalização de sua orla, não resta dúvidas que Paulo Martins foi o gestor que mais investiu esforços e recursos no açude grande de Campo Maior. De todos os gestores, ele foi o único que fez intervenções para sua limpeza e despoluição. 


Fica claro que os nomes que a história preservará, no que diz respeito aos prefeitos que cuidaram do açude grande de Campo Maior, são bem poucos. Nas cinco fases que vos apresentei ou nos últimos 82 anos; ou dos últimos 21 prefeitos que passaram por Campo Maior, apenas quatro ou cinco, no máximo, podem compor esta seleta galeria de gestores. São eles: (1) Prof. Raimundo Nonato de Andrade (1967 – 1971); (2) Mamede Lima (1977 – 1983); Raimundo Nonato Bona Carbureto (1989 – 1992; 2001 – 2004) e Paulo Cesar de Sousa Martins (2013 – 2016). Além desses, talvez o nome de Dácio Bona (1973 – 1977) também mereça entrar nessa lista. 


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