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27/08 22h18 2015 Você está aqui: Home / Pensando a História Marcus Paixão mvpaixao@yahoo.com.br

Bitorocara: Uma tradição inventada. Por Marcus Paixão

As fazendas mais antigas de Campo Maior e da região podem ser facilmente localizadas, mas a Bitorocara permanece obscura. Não há indícios, não há registro que relacione ela com a povoação, não há nenhum tipo de relato oral, não há registro em documentação

Por: Marcus Paixão

Nos últimos trinta anos foi repetido exaustivamente que a origem de Campo Maior está estritamente relacionada à fazenda Bitorocara, que pertenceu ao português Bernardo de Carvalho. Parecia até que era verdade. A tradição foi pouco a pouco se perpetuando no imaginário popular, que logo se apropriou do relato, fazendo dele um importante traço cultural do campomaiorense. Quando se fala de Campo Maior, logo a lembrança do nome Bitorocara vem à mente. Hoje, a tradição da Bitorocara é bastante difundida dentro e fora da cidade. Muitos campomaiorenses defendem essa tradição com unhas e dentes, mesmo sem conhecer com profundidade a história primitiva da cidade. Nem percebem que estão labutando no erro. O mais importante, contudo, parece ser a satisfação do povo em ter encontrado uma boa maneira de explicar suas origens. Se a tradição tem fundamentação histórica ou não, isso não parece ter muita importância. O que vale mesmo é a identidade que a Bitorocara proporciona.

 

As pesquisas mais recentes sobre os primeiros séculos da história do Piauí, especialmente os primeiros movimentos de ocupação e povoamento relacionados a Campo Maior, indicam, de forma praticamente incontestável, que a relação da Bitorocara com Campo Maior se deu por um lapso de interpretação com base em uma série de pressupostos, transformando-se, em seguida, numa tradição inventada, difundida, perpetuada, que serviu, dentre outros interesses, para dar ao campomaiorense uma resposta a cerca de suas raízes. Serviu também para inventar um pai para o povo dos carnaubais: Bernardo de Carvalho. As tradições, como demonstrou o historiador Erick Hobsbawn (A Invenção das Tradições), tem sido um meio bem prático e historicamente utilizado por muitos povos e países para dar explicações a costumes e práticas antigas e outras nem tão antigas assim. Porém, como os interesses políticos em todas as épocas sempre dominaram as esferas do poder, as tradições são criadas para assegurar a origem de alguns aspectos culturais, mas, sem dúvida, com muitos outros interesses por trás disso. Hobsbawn está certo quando adverte que muitas tradições são construídas para manobrar politicamente um povo.

 

Já perdura por mais de um século a invenção da tradição de que Francisco da Cunha Castelo Branco esteve em Campo Maior e foi seu fundador. O Estado do Piauí irresponsavelmente ainda defende essa posição. Mas essa é mais uma tradição inventada, muito provavelmente com bastantes interesses políticos envolvidos. A invenção da tradição de Francisco da Cunha Castelo Branco teve início com a publicação do livro de Pereira da Costa (Cronologia Histórica do Piauí), onde ele lançou os alicerces dessa tradição ao sugerir que o patriarca dos Castelo Branco recebeu uma carta de sesmaria do rei de Portugal, vindo, logo em seguida, residir em Santo Antonio do Surubim (Campo Maior). Jamais foi encontrado a tal carta de sesmaria. Francisco da Cunha Castelo Branco nunca pôs os pés em Campo Maior, hoje sabemos, e seu nome verdadeiro não tem o sobrenome “Cunha”; ele chamava-se Francisco de Castelo Branco. Quanto aos interesses políticos, Pereira da Costa, o historiador que inventou a tradição dos Castelo Branco, era bem próximo do Barão de Campo Maior, membro da família Castelo Branco, e, na época, um dos homens mais importantes do Piauí, chegando a ocupar o cargo de vice-presidente da província.

 

Muitas tradições são inventadas e começam a se desenvolver no decorrer do tempo, adquirindo novas expressões. Um bom exemplo é a serra de Campo Maior, um belo cartão postal da cidade, que tem sido excessivamente chamada de “Serra de Santo Antônio” nos últimos anos. Porém, essa é uma designação muito recente. Não precisamos voltar muito no tempo para constatar que essa é mais uma tradição inventada. A documentação de nosso passado mais moderno nunca faz menção à serra de Campo Maior com essa designação, e muito menos a documentação mais antiga. A serra grande ou “serra azul” começou a ser chamada de serra de Santo Antonio por conta de um crescente interesse em catolicizar todo símbolo campomaiorense, homenageando Santo Antonio. Não vai demorar muito para que o açude grande seja chamado de açude de “Santo Antônio”.

 

Assim foi a invenção da Bitorocara; a invenção da fundação de Campo Maior por Francisco de Castelo Branco, e a mais recente invenção, que coroou Bernardo de Carvalho o fundador de Campo Maior. A tradição inventada da Bitorocara e de Bernardo de Carvalho ganhou força extra quando foi sancionado por decreto municipal o reconhecimento de Bernardo de Carvalho como fundador de Campo Maior. Atos como esse tem o poder não apenas de influenciar a população, mas de perpetuar as tradições inventadas, estabelecendo no imaginário a idéia como algo inequívoco e inquestionável.

 

Posso garantir ao leitor, assegurado por uma séria pesquisa nas fontes mais primitivas relacionadas a Campo Maior, que a Bitorocara, até aqui, é uma falácia. A Bitorocara foi uma fazenda de gado que realmente existiu, mas ninguém até agora foi capaz de dizer onde ela estava assentada. Há forte argumentação para localizá-la bem próxima ao rio Parnaíba; outras possibilidades situam a fazenda perto das cidades de Alto Longá, de Piracuruca, e de Campo Maior. Mas tudo gira no campo de conclusões baseadas em interpretações, que são sustentadas por uma teia de frágeis pressupostos. As fazendas mais antigas de Campo Maior e da região podem ser facilmente localizadas, mas a Bitorocara permanece obscura. Não há indícios, não há registro que relacione ela com a povoação, não há nenhum tipo de relato oral, não há registro em documentação da época que mencione a Bitorocara junto ao conjunto de fazendas que pertenciam à região mais próxima à vila de Campo Maior. Quando o assunto é Bitorocara, tudo se evapora no ar... Sem historicidade, sem registro, sem comprovação... Apenas uma tradição inventada.

 

O que sabemos hoje sobre as origens de Campo Maior? Existe algumas respostas para essa pergunta. A região começou a ser povoada quando muita gente que passava pelo corredor do gado, cruzando as terras de Campo Maior, resolveu parar e levantar curral (fazenda). Os primeiros currais estavam espalhados em diversos pontos da região, que mais tarde passaram de curral para pequenas povoações, depois vilas. Mas Campo Maior, diferente do modelo fazenda-cidade estabelecido em todo Piauí, teve seu primeiro povoamento devido a construção da igreja de Santo Antonio. O pequeno povoamento teve início depois que a primeira igrejinha foi levantada, em lugar solitário, longe das fazendas. Muito rapidamente a igreja começou a atrair fazendeiros e casas para a sua proximidade, surgindo daí o primeiro povoamento legítimo. Campo Maior não nasceu da fazenda Bitorocara, como reza a tradição inventada, mas pela força igreja, que influenciou o espírito religioso do português, arrastando-o para perto do sagrado, perto da proteção religiosa, perto de suas raízes portuguesas.


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