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  21:54

Uma espécie rara de planta carnívora aquática foi registrada pela primeira vez no Nordeste do Brasil. Pesquisadores descobriram Utricularia warmingii em Campo Maior, no Piauí, levando-os a reavaliar o risco de extinção da espécie no país. 

Com base nos novos dados, o estudo sugere que a planta seja classificada como “Em Perigo” no Brasil, devido à sua ocorrência restrita, populações isoladas e ameaças crescentes aos ambientes aquáticos onde vive. A pesquisa foi liderada por pesquisadores da Universidade Federal do Piauí e contou com a participação do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). O trabalho foi publicado na revista científica Kew Bulletin.

Sem registros em algumas regiões há mais de 80 anos, a planta carnívora, que pertence à família Lentibulariaceae, reapareceu agora em uma área alagada em Campo Maior, a 80 quilômetros da capital, Teresina, durante um inventário de plantas aquáticas realizado em 2023. 

A planta vive submersa em águas rasas, tem até 6 centímetros de altura e captura pequenos organismos aquáticos por meio de estruturas microscópicas semelhantes a armadilhas, chamadas utrículos, típicas das plantas carnívoras do gênero Utricularia. As flores brancas, tingidas de amarelo e vermelho, surgem em uma haste inflada cheia de ar, que ajuda a planta a flutuar na superfície.

Apesar de ocorrer em alguns países da América do Sul, como Bolívia, Colômbia e Venezuela, os registros da espécie são raros e bastante espaçados. No Brasil, ela já havia sido registrada no Pantanal e em áreas do Sudeste, mas algumas dessas populações podem ter desaparecido ao longo do tempo. Em São Paulo, por exemplo, não há registros desde 1939, o que sugere possível extinção local. A ausência de coletas posteriores à que levou à descrição da espécie, realizada em Caldas/MG, em 1877, pode significar que esteja extinta também em Minas Gerais.

“A descoberta no Piauí amplia o conhecimento sobre a distribuição da espécie, mas também evidencia sua vulnerabilidade. Até agora, a população encontrada parece estar restrita a um único local, e novas buscas na região não localizaram outras ocorrências”, destaca o professor Francisco Ernandes Leite Sousa, mestrando da UFPI e líder da pesquisa.

“Espécies como Utricularia warmingii podem ter distribuição geográfica ampla no mapa, mas na prática ocupam apenas pequenos fragmentos de habitat. Isso as torna especialmente vulneráveis à perda de áreas úmidas”, explica o pesquisador Paulo Minatel Gonella, do Instituto Nacional da Mata Atlântica e coautor do estudo.

Os ambientes onde a espécie ocorre — lagoas rasas e áreas alagadas temporárias — estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. Mudanças no regime de cheias, expansão agropecuária, uso de fertilizantes, introdução de espécies invasoras e alterações na paisagem podem comprometer a qualidade da água e a sobrevivência dessas plantas especializadas.

No Brasil, os registros confirmados indicam que as populações da espécie estão separadas por grandes distâncias e ocorrem em poucos locais isolados. A área real ocupada pela espécie no Brasil é extremamente pequena, em torno de 36 km². Esse cenário reduz as chances de recolonização natural caso uma população desapareça, aumentando o risco de extinção regional. 

“Esse caso também mostra como ainda conhecemos pouco a flora de várias regiões do país. Áreas como o interior do Nordeste permanecem subamostradas, e novos estudos podem revelar espécies raras ou populações ainda desconhecidas”, afirma Gonella.

Os autores destacam que intensificar pesquisas de campo em regiões pouco exploradas é essencial para compreender melhor a biodiversidade brasileira e orientar estratégias de conservação. A descoberta reforça a importância de proteger ambientes aquáticos naturais, especialmente áreas úmidas temporárias, que abrigam espécies altamente especializadas e sensíveis às mudanças ambientais.

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