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Padre que visitou Campo Maior é suspeito de desvio de dinheiro das doações dos fiéis

O padre Robson de Oliveira esteve em Campo Maior no dia 27 de outubro de 2019 trazendo a imagem do Divino Pai Eterno

Padre Robson de Oliveira Pereira, de 46 anos, conhecido pela sua peregrinação com a imagem do Divino Pai Eterno por diversas cidades do Brasil, que inclusive, esteve em outubro de 2019 na cidade de Campo Maior onde celebrou uma missa para mais de 10 mil pessoas, é apontado como líder de uma organização criminosa que desviou R$ 60 milhões doados pelos fiéis.

Os recursos provenientes de doações foram utilizados inclusive para a compra de uma casa na Praia de Guarajuba, na Bahia, conforme aponta o Ministério Público de Goiás (MP). As informações são do O Globo. 

O imóvel foi adquirido em 2014 por R$ 2 milhões e o valor foi pago à vista. A aquisição foi feita pela Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), criada e presidida pelo padre Robson. A compra foi efetuada de uma empresa chamada Sistema Alpha de Comunicação, que também é investigada.

"As contas bancárias da Afipe foram usadas para comprar fazendas, residências em condomínio fechado, apartamentos em São Paulo e Goiânia, fazendas em todo o Brasil, mineração. Quer dizer, a Afipe é hoje uma grande empresa. Ela tem o argumento religioso mas se converteu em uma grande empresa no Estado de Goiás que explora inúmeras atividades, agropecuaria e mineração, compra inúmeros imoveis e vende inúmeros imóveis", disse o promotor Sebastião Marcos Martins, coordenador da investigação.

Padra Robson, durante a celebração de uma missa Foto: Reprodução

Além da casa de praia, uma chácara com casa de paredes de vidro com vistas para o jardim, uma piscina aquecida e um ofurô também teria sido comprada com dinheiro doado por fiéis para a Afipe. A propriedade foi alvo de busca e apreensão realizada na manhã desta sexta-feira (21). O MP chegou a pedir a prisão preventiva do padre, mas o pedido foi negado pela juíza Placidina Pires, da Vara de Feitos Relativos a Organizações Criminosas e Lavagem de Capitais.

Nos últimos três anos, a Afipe movimentou R$ 120 milhões. Desse montante, o Judiciário sustenta que até o momento pode-se afirmar que R$ 60 milhões foram desviados dos cofres da Afipe. A entidade foi criada para manter as atividades da Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade, município localizado a 23 km de Goiânia. As informações constam na decisão que autorizou a realização de busca e apreensão em endereços ligados ao padre nesta sexta-feira (21).

As investigações começaram depois que o padre Robson foi vítima de extorção, em 2017, quando ele teve computador e celular hackeados e passou sofrer chantagem “para que não divulgassem imagens e mensagens eletrônicas com informações pessoais, amorosas e profissionais que levassem a prejudicar sua imagem”, segundo o MP.

A busca e apreensão foi realizda em endereços ligados ao padre nesta sexta-feira (21) Foto: Reprodução

Na ocasião, o padre transferiu mais de R$ 2 milhões das contas bancárias da Afipe para os criminosos. A quadrilha foi condenada em 2019, mas o uso do dinheiro da fundação para fins pessoais ligou o sinal de alerta das autoridades. O MP afirma que Robson apropriou-se de valores arrecadados dos fiéis e utilizou para finalidades diversas daquelas desenvolvidas pela entidade.

“Os elementos informativos coletados indicam que as doações feitas por fiéis de todo o país para o custeio das atividades da Afipe e para o pagamento das obras e projetos de cunho social da mencionada associação, na verdade, estariam sendo utilizadas para finalidades espúrias”, escreve a juíza Placidina Pires na decisão. 

Padre Robson rodeado de fiéis Foto: Reprodução

Entre essas finalidades, prossegue o texto, estão o pagamento de despesas pessoais dos investigados e a aquisição de imóveis, incluindo várias fazendas e casa de praia, que, a princípio, não se destinam ao atendimento dos seus propósitos religiosos.

Batizada de “Vendilhões”, a operação investiga crimes de apropriação indébita, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos, sonegação fiscal e associação criminosa. Ao todo, foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão em locais como chácaras, casas e a sede da Afipe. A juíza Placidina Pires também determinou o bloqueio de valores da Afipe até o limite de R$ 60 milhões, por meio do sequestro de bens imóveis ou o bloqueio de valores em conta.

DOAÇÕES DE FIÉIS

Nascido e criado em Trindade, padre Robson morou na Irlanda e fez mestrado em Teologia Moral na Universidade do Vaticano, em Roma. Ele retornou ao Brasil no ano de 2003, quando assumiu a reitoria do Santuário do Divino Pai Eterno. Uma de suas primeiras ações como reitor foi pedir ao Vaticano o título de Basílica. 

O reconhecimento veio em 2006, pelo Papa Bento XVI, que concedeu o título de Basílica Menor, tornando-a a única no mundo dedicada ao Divino Pai Eterno. A atual Basílica conta com cerca de 2,5 mil lugares. Mas uma outra está em construção e terá capacidade para 6 mil pessoas. A obra é desenvolvida com dinheiro de doações feitas pelos fiéis.

O carro do Ministério Público em frente a sede da Afipe Foto: Reprodução

Com missas realizadas no local transmitidas ao vivo pela Rede Vida, o trabalho do padre Robson passou a repercutir no Brasil e no exterior. O pároco chegou a celebrar missa em eventos como a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos e realizou a Novena dos Filhos do Pai Eterno em países como Israel, Portugal, Espanha, Itália, México e França.

Padre Robson com fiéis Foto: Reprodução

A Afipe também é responsável pela TV Pai Eterno. Lançado no dia 15 de maio de 2019, o canal tem programação 24 horas por dia em sinal aberto e também pode ser sintonizada no Brasil e no exterior via antena parabólica.

Em 2010, o pároco lançou um cd chamado “Nos Braços do Pai: Padre Robson de Oliveira”. Na época, ele distribuía autógrafos e tirava fotos com os fãs onde passava para celebrar missas e cantar suas músicas.

O cd lançado pelo Padre Robson Foto: Reprodução

O advogado Klaus Marques, que representa a Afipe, afirmou que todos os negócios da entidade estão contabilizados. Ele justificou a compra de fazendas, apartamentos e postos de combustíveis como uma forma de investimento e justificou que os rendimentos são integralmente aplicados na entidade.

"A Afipe tem diversas atividades fim, uma delas é a evangelização pelos meios de comunicação. Vocês devem conhecer a rádio Pai Eterno, mais recentemente a TV, um enorme conglomerado comunicacional que custa dinheiro. Para que a Afipe pudesse ter tudo isso ela precisou de recursos. A questão toda era: vou manter todos os recursos que eu recebo dos meus fiéis no banco, com taxa selic de 2% ao ano ou vou fazer aplicações em outros mercados e ter rendimentos maiores?", disse o advogado.


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