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Pensando a História

Marcus Paixão

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O Cemitério do Batalhão pode guardar os restos mortais dos soldados de Fidié

Não se sabe, ao certo, o número de mortos que tiveram os portugueses, porque Fidié reuniu os cadáveres em cinco sepulturas e não as enumerou na parte da ação

A incerteza quanto ao real lugar onde os brasileiros que morreram na Batalha do Jenipapo estão sepultados levanta uma outra questão, bastante constrangedora, se for confirmada. Primeiro, é importante lembrarmos que o Cemitério do Batalhão, em Campo Maior, tradicional lugar onde se diz que estão enterrados os mortos da Batalha do Jenipapo pode ter surgido a partir do imaginário popular, depois da construção de um Obelisco em memória aos mortos da guerra. Com absoluta certeza posso afirmar que no Cemitério do Batalhão estão sepultadas pessoas que viviam na vizinhança e, depois do Obelisco e do simbolismo que adquiriu o lugar, a comunidade, de fato, transformou a área num cemitério. Contudo, antes de 1922, os homens que lutaram na guerra do Jenipapo, “durante anos permaneceram no esquecimento, principalmente por parte das autoridades” (BRASIL, 2002, p. 20).


Nos primeiros 100 anos do pós-Batalha, os heróis do Jenipapo ficaram no esquecimento. Afirmar que os restos mortais dos patriotas que lutaram na guerra do Jenipapo, que consagrou a completa independência do Brasil, também estão nesse cemitério, é algo que ainda não foi provado por ninguém. Apenas um século depois da guerra foi que as primeiras homenagens começaram a aparecer. O que sustenta a afirmativa de que os nossos heróis estão sepultados ali, é tão somente a tradição e nada mais.


Em segundo lugar, e muito constrangedor, é a confirmação que temos por documento e pela historiografia produzida sobre o tema, que o Major Fidié, após a mortal batalha, depois da debandada dos patriotas do local de guerra, permaneceu algumas horas no campo de batalha, recolhendo armas, somando as perdas e os ganhos, prestando os primeiros cuidados aos feridos, reavaliando sua estratégia e juntando os cadáveres dos seus soldados. Aqui, para embasar minha argumentação, cito Abdias Neves e o Mons. Chaves:


Não se sabe, ao certo, o número de mortos que tiveram os portugueses, porque Fidié reuniu os cadáveres em cinco sepulturas e não as enumerou na parte da ação (NEVES, 2006, p. 148).

 

Em Campo Maior permaneceu Fidié dois dias enterrando seus mortos, curando os feridos, reorganizando as fileiras (CHAVES, 2005, p. 86).

 

Observe que, como afirma Abdias Neves, o Major Fidié enterrou os soldados mortos (no lugar da batalha), em cinco covas. Mons. Chaves segue na mesma linha, deixando certo que ele, Fidié, enterrou seus mortos no campo de batalha, isto é, em terras campo-maiorenses. A quantidade de portugueses mortos varia, segundo a historiografia. Alguns falam em menos de 20, outros chegam a afirmar um número bem superior a 200, até maior, se observarmos a tradição oral. É incerto. Mas, cinco covas abertas sugere um número não muito alto de mortos portugueses. Onde, exatamente, Fidié os enterrou? Não podemos saber; não há nenhum registro do lugar exato. Porém, foi no lugar chamado “Campo do Batalhão”, pois esse foi o palco da batalha: “Em Campo Maior permaneceu Fidié dois dias enterrando seus mortos...”. Também pode o comandante português ter sepultado outros portugueses, que vieram a falecer em seguida, vítimas das feridas de guerra, nas proximidades da casa da fazenda Tombador, a cerca de um quilometro da vila de Campo Maior. Nesta fazenda Fidié passou dois dias: a noite do dia 13 de março, todo o dia 14, e a manhã do dia 15. Ele deixou a fazenda por volta das 11 horas da manhã.

 

Se a tradição campo-maiorense de que os Heróis do Jenipapo mortos estão enterrados no Campo do Batalhão for realmente anterior à construção do Obelisco (1922), os túmulos que estão lá, podem conter, não os restos mortais dos patriotas que lutavam pela independência do Brasil, mas os restos mortais dos soldados portugueses que foram sepultados no lugar do combate. Podem ser os soldados que Fidié enterrou, conforme citam as fontes. Também deve ser considerado que o cemitério era bem menor do que o que vemos hoje. Atualmente a velha necrópole já está bem adulterada. Quanto aos brasileiros, volto a dizer, não existe nenhuma documentação que ateste que estejam sepultados no lugar do conflito, mas, quanto aos portugueses, estes sim, há testemunhas que afirmam que foram sepultados no Campo do Batalhão, o lugar onde se deu a Batalha do Jenipapo.


O constrangimento, se confirmado a hipótese, está no fato de, há décadas, as forças armadas brasileiras estarem prestando homenagens aos soldados inimigos, que pretendiam nos massacrar. Há muitas décadas, anualmente, o Exército brasileiro, no dia 13 de março, visita o velho cemitério da Batalha do Jenipapo para honrar os heróis brasileiros. O Governo do Estado e o Governo Federal, que reconhecem no Cemitério do Batalhão o último lugar de descanso dos heróis da guerra do jenipapo, visitam o cemitério para prestar as mesmas honras. Seria constrangedor saber que, debaixo daquele chão, estão os portugueses que lutaram para dizimar nosso exército separatista e para manter o Brasil sob o julgo político português.


Contudo, o famoso e quase bicentenário “Cemitério do Batalhão” jamais perderá seu encanto e seu simbolismo. Jamais deixará de ser o cemitério dos veteranos do Jenipapo, dos heróis brasileiros que deram seu sangue pela libertação do Brasil. O simbolismo do cemitério dos Heróis do Jenipapo é perpétuo. Naquele campo, independentemente de onde tenham sido sepultados os bravos soldados campo-maiorenses, sempre se prestará as devidas honras aos nossos homens. Ainda que as sepulturas sejam, de fato, de soldados portugueses, servirá isso apenas para notarmos que aqueles que jazem ali foram eliminados pelos nossos soldados. Naquelas sepulturas está morto o sonho de Portugal.


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