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Pensando a História

Marcus Paixão

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Cemitério dos Heróis do Jenipapo pode ter sido criado em 1922, por ordem do ex-prefeito de Campo Maior

O prefeito da cidade ordenou que se colocassem pedras, criando ou, fazendo surgir, pela primeira vez, as famosas sepulturas

Reza a tradição de que aqueles que morreram na Batalha do Jenipapo estão enterrados no cemitério que fica atrás do Monumento. Quando surgiu essa tradição? E o mais importante: os soldados que lutaram na Batalha do Jenipapo estão mesmo enterrados lá?


Quando o Conselho de Campo Maior construiu o Obelisco em homenagem à memória dos Heróis do Jenipapo, já havia decorridos 100 anos da Batalha. Nestes últimos cem anos nenhuma homenagem ou lembrança aos combatentes da guerra campo-maiorense jamais havia sido realizada. Estavam renegados ao mais completo esquecimento. Isso pode ser conferido, por exemplo, em alguns poucos títulos da bibliografia sobre o assunto, a exemplo do José Omar Brasil, campo-maiorense e pesquisador da Batalha do Jenipapo, que lembrou que os combatentes “durante anos permaneceram no esquecimento, principalmente por parte das autoridades” (p. 20). Os jornais da década de 70, especialmente o semanário A Luta, tratou do abandono total da memória dos heróis da Batalha do Jenipapo nos primeiros cem anos do confronto. Portanto, foi a construção do Obelisco que quebrou o silêncio e pôs fim ao esquecimento dos nossos heróis de guerra. Aquele rústico Obelisco fez a primeira honra aos nossos soldados. 


Quando o Obelisco foi erigido, em 1922 (para celebrar o centenário da Batalha, no ano seguinte), o prefeito da cidade (Intendente) ordenou que se colocassem pedras, criando ou, fazendo surgir, pela primeira vez, as famosas sepulturas dos que morreram na Batalha do Jenipapo. Adrião Neto destaca que “o prefeito de Campo Maior, Luís Rodrigues de Miranda (Major Lula), mandou construir um rústico obelisco e delinear com pedras as sepulturas dos combatentes que tombaram pelo ideal de independência e de liberdade” (p. 55). Segundo ele, o prefeito apenas mandou “delinear as sepulturas” com pedras, o que seria apenas um tipo de marcação ou o tracejo ao redor das sepulturas. Porém, o texto de Adrião Neto tem base nas referências que o jornal campo-maiorense A Luta apresenta no início da década de setenta, mas com uma linguagem um pouco diferente. 


Segundo o editorial do A Luta, “foram construídos túmulos para guardar o corpo dos heróis, como marco que as gerações futuras lembrariam a nobreza e a honra de morrer pela pátria ... estão entregues à sanha incruenta das intempéries os túmulos e monumentos erguidos no palco em que se desenrolou o drama da Batalha do Jenipapo”. O semanário não fala em uma simples marcação, mas, de fato, na construção de túmulos. Chega a falar em “túmulos e monumentos erguidos”, o que nos permite questionar a existência do cemitério anterior a essa data, 1922. Por outro lado, também parece ser o entendimento de que os restos mortais dos combatentes do Jenipapo estavam ali enterrados, pois o texto afirma que os túmulos ou amontoados de pedras serviam para “guardar o corpo dos heróis”. O editorial, ao se afirmar que os corpos estão lá, apenas seguem a tradição campo-maiorense.


Nesse tempo, início dos anos setenta, quando o texto do semanário foi publicado, já cinquenta anos havia se passado desde a construção do Obelisco e dos túmulos de pedra. A tradição de que os mortos da Batalha do Jenipapo estão enterrados naquele lugar já estava muito forte cinquenta anos depois. O Governo do Estado do Piauí estava prestes a erguer um grande monumento de concreto para homenagear os Heróis do Jenipapo (erguido em 1973). Assim, naquela época, muitos outros túmulos de pedra foram acrescentados no entorno do Obelisco. Aquele lugar, na década de setenta, já era visto como um lugar de memória, de forte tradição popular, o cemitério dos heróis do Jenipapo, reconhecido pelo IPHAN (1938) e pelo Estado do Piauí. 


É muito provável que o cemitério não existisse nos primeiros cem anos da Batalha do Jenipapo. E, se existisse, era praticamente desconhecido de todos, até mesmo da maioria dos moradores da região. Talvez seja por isso que nenhum autor e nenhum documento escrito na época, nem mesmo documentos escritos nos primeiros cem anos do pós-Batalha do Jenipapo faça qualquer tipo de menção ao Cemitério do Batalhão. Nem mesmo o escritor Abdias Neves menciona esse cemitério. No início da premira década de 1900, ele obteve muita informação dos moradores de Campo Maior. É grande a probabilidade de que muitas pessoas que conversaram com Abdias Neves já eram nascidas na época da Batalha. Parece, entretanto, que nenhuma delas conhecia nada acerca do cemitério do Batalhão ou do paradeiro dos mortos.


A homenagem do Conselho de Campo Maior, em 1922, parece ter sido muito mais do que a construção de um Obelisco. Naquela data, pelo que a ata do Conselho e outras evidências parecem sugerir, a construção das simbólicas sepulturas em memória aos Heróis do Jenipapo deu origem ao próprio cemitério do Batalhão e sua tradição. Isso explicaria o completo silêncio em relação ao cemitério e ao destino dos corpos dos combatentes por um século.
 

 


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